Mulheres se destacam na produção cervejeira em Santa Catarina

Em um mercado ainda muito masculino, elas lutam para conquistar seus espaços e pela igualdade dentro do setor. Na semana que antecede o Festival Brasileiro da Cerveja, reunimos seis histórias de mulheres que estão fazendo acontecer neste universo

Por muito tempo a mulher era usada apenas como parte do marketing das marcas de cerveja. Hoje essa não é mais a realidade. Ainda bem. Elas ocupam os mais diversos cargos ligados ao setor – desde a criação de receitas até no ensino sobre o assunto. Isso, claro, sem esquecer o consumo: todos os dias, nas redes sociais e na vida, se comprova que cerveja é bebida de mulher, sim, e que não existe exclusividade quando o assunto é sabor que agrade a elas.

Segundo a história, a participação feminina na produção caseira começou muito antes dos homens. Isso porque enquanto eles saíam para caçar ou guerrear, elas eram as responsáveis por todo alimento e bebida em casa. E se hoje este mercado está em expansão, as mulheres são peças fundamentais deste percurso.

O setor cervejeiro está a pleno vapor no Brasil. Só em 2018, foram 210 novas fábricas instaladas, totalizando 889. Fazendo um panorama, há 10 anos este número não passava de 250 de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Na semana que antecede o Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau, que reúne muitas dessas mulheres para analisar os rótulos, expor suas receitas e ensinar sobre o tema, reunimos histórias que mostram que, em Santa Catarina, há inúmeras possibilidades para que elas atuem neste setor.

Foco em produzir
 
Jéssica Jaqueline Jaguela diz que sempre teve interesse por cerveja, mas nunca imaginou trabalhar com a bebida. Natural de Ponta Grossa (PR), ela está morando em Blumenau e atuando na produção da Cervejaria Alles Blau através de uma consultoria nacional na área. O crescimento do mercado foi o que atraiu a atenção da engenheira agrônoma que tem duas indústrias do segmento no currículo.

Aos 22 anos, ela acredita que as oportunidades para a formação de uma carreira no mercado cervejeiro é o que atrai muita gente – e as mulheres, claro.

— Lidei com o machismo, claro. Existe um preconceito com as meninas que trabalham nisso, especialmente quando são jovens. Mas nunca deixei que isso abalasse a busca dos meus objetivos — afirma.

Estudar cerveja

Luana Lechenakoski de Oliveira tem 23 anos e é natural de Curitiba (PR). Ela mudou de vida em fevereiro de 2018 para estudar no primeiro curso de Engenharia de Produção Cervejeira fora da Alemanha, que é oferecido pela Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), em Blumenau. Apaixonada pelo setor desde que atuou em uma empresa especializada em fermento, a decisão por investir numa segunda graduação foi pensada nas oportunidades. Ela é formada em Engenharia Química.

— O mercado está amadurecendo e ganhando força. Consequentemente, a profissionalização também. Fazer parte das primeiras turmas de ensino acadêmico no segmento é ter a certeza de que haverá muitas chances de contribuir e estamos sendo preparados para isso — afirma.

Espaço conquistado pelo conhecimento

— Meu sonho é que o papel da mulher dentro do mercado cervejeiro seja tratado de forma tão natural quanto o do homem. A nossa luta é diária, temos o conhecimento testado a todo momento e isso faz parte da rotina do meu trabalho. Espero que algum dia possamos tratar isso como uma coisa do passado — diz Fernanda Meybon, Engenheira Química, Sommelière de Cervejas, Mestre em Estilos, Avaliação e Harmonização de Cervejas pelo Siebel Institute of Technology de Chicago (EUA).

Apesar do extenso currículo, foi por acaso que ela entrou neste universo.

—Sempre fui apaixonada pela bebida e resolvi que queria conhecer mais sobre o assunto. Depois de fazer o curso de sommelier, fui chamada para algumas degustações e eventos e percebi que isso estava deixando de ser um hobby para se tornar algo sério — comenta.

Natural de Porto Alegre (RS), mora em Florianópolis desde os três anos. Hoje, aos 40, é uma das mulheres mais reconhecidas dentro do setor, atuando na área desde 2014. Professora da Escola Superior de Cerveja e Malte nos cursos de Master em Estilos e pós-graduação em Tecnologia Cervejeira, Fernanda também é juíza de cervejas, certificada pelo Beer Judge Certification Program (BJCP).

Cerveja é coisa de quem gosta

Natural de São Paulo (SP), Fernanda Bressiani, de 41 anos, é Mestre em Estilos pela Escola Superior de Cerveja e Malte e não imaginou que a cerveja se tornaria parte tão importante da sua vida.

— Fiz o curso de sommelier porque queria me aprofundar um pouco mais neste universo. Acabei me apaixonando pela bebida por todas as possibilidades que ela traz. Comecei a trabalhar na área e, desde então, não parei mais. Hoje, para mim, tudo gira em torno da cerveja — afirma.

A arquiteta e moradora de Blumenau atua na criação de carta de cervejas em estabelecimentos e treinamentos e diz que já sofreu preconceito no meio.

— Eu acho que, acima de tudo, é preciso acabar com essa coisa de mulher e de homem. Somos pessoas, profissionais, independente do gênero. Acredito que a partir do momento que formos tratadas com o devido respeito, poderemos trabalhar juntos e fortalecer cada vez mais o setor — comenta.

Chef e sommelière

Foi através da gastronomia que Larissa Guerra confirmou sua paixão pelas cervejas artesanais. Ela é conhecida por unir os dois universos na Cozinha Catarina, projeto que surgiu em 2017 e ressalta os sabores regionais em pratos que levam a bebida na preparação.

— Comecei a me interessar pelo mundo das artesanais quando provei pela primeira vez uma Witbier. Lembro que fiquei encantada com o frescor e a delicadeza desse estilo e passei a pesquisar e procurar outros em viagens e a pensar em como poderia combinar com pratos e receitas — comenta.

Das suas criações, as preferidas são a Carbonade Flamande (carne de panela com cerveja Dubbel), sobrecoxa de frango com cerveja Tripel e o ceviche com Catharina Sour. Natural de Lages, Larissa tem 30 anos e é formada em gastronomia pela Senac e sommelier de cervejas pela Escola Superior de Cerveja e Malte.

Espaço para profissionais de várias áreas

Enquanto a maioria das pessoas começa a atuar no mercado cervejeiro depois de estudar sobre a bebida, Dulce Bachmann, de 30 anos, veio na contramão. Começou a trabalhar em 2008 no Instituto de Administração e Direção de Empresas, que hoje é a Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM). Formada em Publicidade e Propaganda, foi quando a empresa passou a se especializar na bebida que ela sentiu que precisava se profissionalizar no segmento.

— Sempre gostei de cerveja, mas nunca imaginei que trabalharia com isso. Pensava em fazer cursos, mas como hobby. Quando passamos a atuar de forma significativa neste mercado, senti a necessidade de entender melhor como funciona o meio, as pessoas e também suas especificações. Como atuo com comunicação, isso foi essencial para que o meu trabalho fosse bem feito —, afirma.

Dentro deste universo, Dulce comenta que ainda existe muito machismo entre os profissionais.

— Há mulheres incríveis que podem representar o mercado cervejeiro, não só em Santa Catarina, como em todo o país, que muitas vezes encontram barreiras simplesmente por serem mulheres. É uma luta diária, constante, para quebrar esses preconceitos — complementa.

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