Ecossistema catarinense de tecnologia amplia alcance para outras regiões do estado

Empresas do segmento se espalham por mais municípios e descentralizam panorama até então focado em polos como Florianópolis, Joinville e Blumenau
Centro de Inovação ACATE Deatec (Ciad) inaugurado em dezembro de 2020 – Divulgação

Estado com maior crescimento na criação de empresas de tecnologia no país em 2019, segundo o estudo Tech Report 2020 divulgado pela Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE) e a Neoway, Santa Catarina passa por um processo de descentralização do setor. O crescimento de startups e polos fora da região dos chamados grandes centros confirma a tendência, com cidades do interior cada vez mais interligadas ao ecossistema que, até há poucos anos, se concentrava com intensidade em Joinville, Blumenau e Florianópolis.

O Tech Report mostra que a Grande Florianópolis ainda concentra a maioria de empresas do setor de tecnologia, com 32,5%, seguida pelo Vale do Itajaí, com 27,4%. O Norte (com 18,7%), o Oeste (com 10,6%), o Sul (com 8,2%) e a Serra (2,6%) também apresentam dados relevantes ao estudo, em um movimento que vem em crescimento e contribui para o setor que representa hoje 5,9% do PIB estadual.vou

Alguns movimentos têm confirmado essa crescente. No início de dezembro, a ACATE inaugurou em parceria com o DEATEC (Polo Tecnológico do Oeste Catarinense) o CIAD (Centro de Inovação ACATE Deatec) em Chapecó, no Oeste. É a primeira ação nesse formato da Associação, que pretende ampliar tal iniciativa em outras regiões catarinenses.

“O fortalecimento dos polos regionais é uma das prioridades da ACATE para 2021. Atualmente a associação está presente em todo o estado de Santa Catarina por meio de nove polos, e temos o objetivo de consolidar iniciativas semelhantes ao CIAD em todo o Estado, buscando desenvolver as características de cada mesorregião”, explica Iomani Engelmann, presidente da ACATE.

Para Maria Ignêz, diretora da WK Sistemas, empresa referência em ERP há 35 anos em Blumenau, as políticas públicas voltadas ao incentivo da tecnologia também contribuíram para transformar a cidade em um pólo tecnológico. Por consequência, acabou nascendo uma competição natural entre as empresas, que gerou mais eficiência e eficácia. “Nós estamos no mercado há mais de 30 anos, e por sermos um dos negócios precursores na cidade, conseguimos acompanhar a evolução natural da área. Muitas empresas daqui conseguiram ditar tendências para a região, já que estavam em um ramo em ascensão e tiveram o apoio do governo para crescer. Isso acabou gerando uma competitividade que resulta na produtividade do setor”, destaca.

A descentralização ainda apresenta outros desafios para além dos investimentos. A Compufour, desenvolvedora de soluções de gestão para micro e pequenos negócios, foi criada em Concórdia há 25 anos — e, nas palavras do CEO, Wagner Muller, ainda enfrenta um “gargalo cultural” por ter sua sede em uma região onde até então o foco era prioritariamente o agronegócio. “Nós fomos crescendo nos condicionando às demandas do segmento”, explica. “Aos poucos, a população local foi entendendo que é possível suprir demandas através do empreendedorismo e isso abre um leque de oportunidades que transcende o agro”.

A distância dos grandes centros tecnológicos também é um desafio que as empresas sediadas fora das capitais precisam enfrentar. “Ficar longe de entidades como a ACATE e de outras empresas do ecossistema é um fator que às vezes atrapalha, já que é necessário ter um pouco mais de planejamento e logística para estar fisicamente mais próximo em reuniões ou eventos. Mas a pandemia já mostrou que é possível encurtar essa distância digitalmente, o que certamente vai trazer muitas boas oportunidades para quem está fora dos grandes centros”, avalia Michelly Dellecave, CMO da Pulses, startup que tem soluções de clima organizacional e que tem sua base em Itajaí.

Novos cenários no Oeste Catarinense

Os recentes movimentos da Compufour são significativos nesse contexto de descentralização do ecossistema de tecnologia em Santa Catarina. Do Oeste catarinense, a empresa tem seus softwares de gestão ativos em todo os estados do país, com quase 50 mil clientes ativos e movimentação total de R$ 26 bilhões em suas plataformas durante 2019. Números que chamaram a atenção do grupo italiano Zucchetti, que adquiriu a empresa catarinense em outubro de 2020, por R$ 100 milhões.

Para o CEO, um resultado difícil de imaginar quando a empresa foi iniciada há mais de duas décadas. “O cenário era totalmente diferente”, recorda Wagner. “Não existia um ecossistema tão atuante, tão pouco a cultura colaborativa. Existia pouco incentivo, material, tão pouco cursos profissionalizantes. Ser desenvolvedor era para quem gostava, não existia lá grandes perspectivas positivas para a carreira”.

A criação de centros de inovação, o incentivo governamental, a formação de entidades e o reforço na formação profissional são apontados por Muller como os pontos principais nesse processo de descentralização, que agora mostra resultados aos que investiram há alguns anos. “Nunca tivemos a pretensão de criar algo disruptivo, totalmente inovador. Muito menos alcançar a capilaridade atual. Obviamente, com o passar dos anos, as coisas foram acontecendo e, naturalmente, os sonhos e objetivos aumentaram”, pontua.

Os resultados da Compufour refletem e são reflexo de um ecossistema tecnológico cada vez mais crescente no Oeste. Além da inauguração do centro de inovação no início de dezembro, a região é a que mais cresceu no setor de tecnologia entre 2015 e 2019, com aumento de 27% no número de empresas – hoje, são 1.291, com faturamento superior a R$ 918 milhões, segundo o ACATE Tech Report.

Desafios do interior

Em Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí (SC), está localizada a Área Central — empresa especialista em tecnologia para gestão de centrais de negócios. Jonatan da Costa, CEO, afirma que o maior desafio é a mão de obra, que é ainda mais escassa no interior. Quando o problema foi detectado, a empresa passou a contratar pessoas por fit cultural. “Nós acreditamos que os melhores profissionais não aparecem com todas as habilidades técnicas consolidadas. Entendemos a dificuldade de atrair talentos, então, optamos por capacitar as pessoas que têm interesse em trabalhar conosco”, explica Jonatan. Na Área Central, os futuros colaboradores são selecionados primeiramente por habilidades comportamentais, as soft skills, e depois pelas aptidões compatíveis com a função a ser exercida: “uma pessoa alinhada com a cultura da empresa vai se desenvolver facilmente dentro do que o nosso negócio propõe”.

O CEO ainda acredita que os profissionais da área de tecnologia não olham para as empresas do interior com potencial de crescimento e de evolução, tanto para a organização quanto para o colaborador. “É preciso desmistificar essa questão. Mesmo que a empresa esteja longe dos grandes centros, ela pode escalar rapidamente e se tornar competitiva também, como é o caso da Área Central”, finaliza. Hoje, após oito anos de estrada, a Área Central conta com clientes em praticamente todos os estados brasileiros, atendendo 200 redes, com 8 mil empresas e 25 mil usuários ativos na plataforma.

Falta de mão de obra também destacada por Wagner Muller, da Compufour, que foca na formação profissional na própria empresa para construir seus perfis de colaboradores. “Historicamente temos encontrado bastante êxito na formação de profissionais ‘dentro de casa’. Além disso, buscamos práticas alternativas oferecidas pelo mercado, como home office por exemplo, e acreditamos muito nas parcerias”.

Capacitação para o fortalecimento

Rio do Sul também é a cidade da startup Effecti, especializada em tecnologia para participantes de licitações. Fundada em 2006, a empresa enfrentou algumas dificuldades iniciais normais de todo novo negócio, porém os sócios buscaram se desenvolver, participando de capacitações e programas de incubação, o que ajudou a alavancar a startup, que hoje conta com mais de 1000 clientes espalhados por todo o país. “Estar no interior não foi um fator limitante para a gente. Conseguimos crescer e escalar nossa solução, pois identificamos um problema no mercado que nosso produto resolve. Não adianta estar em um grande centro e ter um produto que não impacta de verdade a vida das pessoas”, explica Fernando Salla, CEO da Effecti.

Salla destaca que tem percebido o fortalecimento dos ecossistemas regionais – fora dos grandes centros nos últimos anos, além da interconexão entre todos, o que faz com que o desenvolvimento seja cada vez maior. Outro ponto que ele menciona, é que desafios anteriores, como o de contratar profissionais qualificados, estão sendo superados com as adaptações ao trabalho remoto. “A ascensão do home office ajudou muito nisso, já que hoje conseguimos contratar pessoas de qualquer lugar”, finaliza.

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