Lembra de mim?

De repente, o casamento acabou. Fim. Foi tudo muito rápido. Mas os fios viscosos entrelaçados nas veias, nas entranhas, nas mucosas, nos dramas diários, nas tramas do tempo, tudo estava lá há muito tempo, machucando, intoxicando, incomodando.

Dias antes, havia acontecido aquela discussão dura e resistente. Ela deu um soco na mesa da cozinha e gritou: “fascista!”. Ele devolveu no mesmo tom: “petralha!”. Ela bateu em seguida: “canalha!”. Ele lacrou: “babaca!”.

Bateu a porta e saiu de casa. Foi dar uma volta no quarteirão. Fumar.

A última imagem ficara na cabeça: mostravam os dentes e salivavam na direção um do outro. A dança das ofensas ultrapassou a troca de rimas pobres, os chavões de sempre, o bater de portas, os chutes nas cadeiras e, finalmente, os palavrões de praxe, ensaiando uma luta corporal que ficou apenas nas ameaças das calistenias agitadas de um casal em fúria.

Esta foi a cena do fim de tudo. O amor era ódio, as palavras eram feitas de raiva. E assim foi… assim ficou muito tempo… assim o tempo passou…

A memória humana tem sempre uma narrativa conveniente. Os anos de chumbo foram felizes. A gente se encontrava nas passeatas de protesto, ríamos quando era hora de fugir da polícia, falávamos bonito nas reuniões do partido, nos bares, nas festas; era um gozo, era lindo ver a gente gritando as palavras de ordem contra a ditadura, lutando contra o sistema, querendo mudar tudo, mudar o mundo, mudar o mundo…

Lembra da camiseta vermelha? Do pôster do Chê? Do Bob Marley? Do nosso jeito de ser? Lembra? Lembra? A gente se amava, a gente ouvia música, a gente viajava…Lembra?

Lembra do comício das diretas-já? A Praça da Sé lotada, e nós, com aquela bandeira linda do Brasil, abraçados chorando cantando caminhando e cantando… puxa…! era lindo, a gente se amava, tudo era bom, tudo tudo tudo era divino e maravilhoso.

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