Militância Zumbi

10.09.2019

Foto: Reprodução

Imagem - The Walking Dead

Tomados pela onda “The Walking Dead” é difícil encontrar alguém que não saiba o que é um Zumbi e como vivem, como se comportam, que hábitos alimenta e qual é a razão de sua existência. As figuras de zumbis tornaram-se parte do imaginário popular ao inspirarem dezenas de filmes de terror, mas bem que poderiam estrelar alguma trilha da política nacional. Sua busca incessante por miolos e sua fragilidade para ser abatido o tornam individualmente um ser pequeno e desprezível. O problema é quando agem em bando e tornam-se militantes de causas sem pé e sem cabeça. O zumbi seria como um morto-vivo, fabricado por feiticeiros que ressuscitam um cadáver, para transformá-lo em um trabalhador braçal sem vontade própria – mais que um escravo, um autômato de carne ou da causa. Segundo o dicionário militância é a prática da pessoa que defende uma causa, busca a transformação da sociedade através da ação: militância política, social, estudantil.

Em geral não cabe aos militantes ficarem questionando continuamente o ideário que norteia suas ações; eles devem é seguir, junto com seus pares, as ações e os preceitos já desenhados por alguns poucos". A consequência desse modelo organizativo é que o militante se produz: subordinado a partir de uma perspectiva hierárquica disciplinar; consciente da necessidade de martírio pessoal como condição para acessar um mundo ideal pós-revolucionário; libidinalmente ligado a seus pares por uma necessidade de reconhecimento; orientado a posicionar-se dentro de uma topologia de guerra. Lutando em prol de uma causa, o militante é, em realidade, um soldado a serviço de sua lei; e será tanto melhor soldado quanto mais sua obediência decorrer de sua opção interior, de sua consciência e não de mecanismos reguladores.

O cenário atual da política brasileira produziu um tipo de militância tóxica e viral: a Militância Zumbi. Essa massa hoje se concentra nos dois extremos da política brasileira e sua atuação manifesta tem cada vez mais fugido do limite da racionalidade. Não tenho dúvida que parte dos devaneios dessa militância se deve a presença de líderes vazios, egocêntricos e ambiciosos que se intitulam e auto consagram heróis de uma nação. Tanto Lula quanto Bolsonaro têm necessidade do discurso de salvadores e de homens dispostos ao sacrifício em prol do desenvolvimento do País. Um está preso e jura inocência e o outro está no poder e se orgulha de ser polêmico, antissocial, imaturo e despreparado. A militância não consegue perceber que o pecado sempre existiu e existirá dos dois lados. Não devemos ter político e nem política de estimação. Nosso papel e votar, eleger e cobrar. O papel de Zumbi, repetidor de fake News das redes sociais, nos apequena e diante do mundo inteligente nos faz personagens de piadas. O Brasil vive uma polarização política que tem produzido muito rancor, violência e, ainda pior, tem gerado muita discussão, mas pouca proposição.
 
De um lado, “esquerdistas”; de outro, “direitistas”. E outros tantos nomes elogiosos ou depreciativos, ao sabor de quem faz o discurso.
A verdade é que os rótulos Esquerda-Direita embora ainda utilizados na arena política são muito limitados para definir a diversidade política do século XXI. As diferentes visões atuais de mundo e de sociedade não podem mais serem expressas no contexto da habitual polarização Esquerda-Direita. Talvez seja mais interessante assinalar a concepção política de cada um de acordo com a abrangência de seu discurso, por exemplo, liberal/antiliberal, democracia/ditadura, individualismo/coletivismo, intervencionismo/não intervencionismo, etc. O maior problema é que a militância não enxerga isso.

Sartre, ao afirmar que direita e esquerda são duas caixas vazias foi muito modesto. Na realidade, no Brasil os partidos e ideários políticos são uma salada mista de interesses particulares focados tão somente em alianças pragmáticas que lhes proporcionem agradar a sociedade e chegar ao poder. Para esse feito o controle dos militantes zumbis é providencial.

Aos mortos-vivos que militam nas causas da esquerda e da direita brasileira fica o alerta: Só há esquerda ou centro-esquerda, direita ou centro-direita no Brasil quando estão fora do poder. Dentro da máquina administrativa, o que menos importa é a concepção ideológica.

Fonte: Helle Borges

Helle Borges

Historiador, radialista em Itapema e comentarista político 

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